No mundo
da Arte, tanto no passado mais distante como na contemporaneidade, é comum e
frequente o artista trabalhar com encomendas – uma ou várias obras para um
determinado museu ou espetáculo.
“Limites internos ou
externos à obra oferecem resistência à liberdade do artista. No entanto, essas
limitações revelam-se, muitas vezes, como propulsoras da criação. O artista é
incitado a vencer os limites estabelecidos por ele mesmo ou por fatores
externos, como datas de entrega, orçamento ou delimitação de espaço”.
SALLES, Cecília de Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo:
Annablume/Fapesp, 2002. p. 64.
“Cada artista tem seu
tempo de criação. É difícil saber quando começa a gravidez e quando se dá o
parto. Há pintores que são permanentemente prenhes, parindo ninhadas, como era
o caso de Picasso. Eu, antes de iniciar a viagem – o quadro –, consulto minha
bússola interior e traço um rumo. Mas quando estou no mar grosso, sempre sopra
um vento forte que me desvia da rota preestabelecida e me leva a descobrir o
novo quadro. Todo criador é um Pedro Álvares Cabral”.
CAMARGO, Iberê. A gaveta dos guardados. São Paulo: Edusp, 1998. p. 32.
Nem
sempre é percebido, no processo de criação, o que antecede o nascimento da
ideia. Às vezes, as ideias nascem límpidas, e é na sua construção que nascem as
dificuldades.
Corre-se
o risco de pensar uma ideia tão brilhante que percebemos que será difícil
executá-la e desistimos dela. O importante é recriá-la a partir das
possibilidades, das novas ideias que nascem ao longo do processo, pois criar
não é executar algo pronto. Para outros, as ideias nascem durante o próprio
fazer. O que estamos buscando com eles é que percebam o percurso de uma ideia.
PROCESSO
DE CRIAÇÃO EM DANÇA
De onde o coreógrafo
busca os movimentos para sua criação?
Alguns coreógrafos fazem perguntas aos bailarinos
que estão tomando parte no processo da obra que está sendo criada, e estes
podem responder às questões com palavras, movimentos ou das duas maneiras.
Outros coreógrafos trazem textos literários para ser discutidos com os
bailarinos. Outros iniciam lançando uma música ou uma lembrança para que os
bailarinos improvisem com suas próprias movimentações. Ou seja, é um campo
muito aberto, de forma que a memória e a coleta sensorial de cada um dos
envolvidos vai criando tramas que se transformarão, de uma certa forma, na
espinha dorsal da coreografia.
O espetáculo Baile na roça tem a obra de Cândido Portinari como fio condutor e
expressa a diversidade estética da dança brasileira contemporânea. Na criação
desse espetáculo, o diretor José Possi Neto dá prosseguimento ao projeto de
estimular a criação coreográfica entre os bailarinos do Balé da Cidade de São
Paulo, proporcionando maior liberdade aos bailarinos escolhidos para
coreografar. Em vez de influir na concepção e direção do espetáculo, o diretor
desafiou os criadores a assumir real autonomia.
Baile na roça se compõe de cinco coreografias, sendo que uma
delas serve de ligação entre as demais. A gaúcha Ana Teixeira é a autora das
sequências que abrem e encerram o espetáculo e que ligam as coreografias de
seus colegas. Da
obra de Portinari, Ana pinçou o destaque que o
pintor dá aos pés e mãos das figuras que povoam suas telas, como também à
presença da mulher. A partir dessas observações, Ana coreografa para um grupo
de seis mulheres, que no
espetáculo têm os corpos cobertos por tecidos,
deixando em evidência só os pés. Para salientar ainda mais o enfoque nos pés,
esse grupo de bailarinas dança num trecho do palco que, com a ajuda de
elevadores, é alçado a quatro metros
de altura. Em certo momento, o público vê só os pés
das bailarinas que, segundo Ana, representam
um fragmento ampliado dos corpos do povo que habita
o plano inferior do ambiente. São pés que caminham, correm, sofrem, choram,
simbolizando um conjunto de emoções. Raymundo Costa é criador de um solo a
partir do quadro O
espantalho,
brilhantemente interpretado por Gustavo Lopes. A cena/coreografia tem como
referência a parte aérea das obras de Portinari, as figuras que pairam no ar.
Para isso, Costa utilizou técnicas circenses, como ao colocar o bailarino preso
em cordas elásticas. Costa representou, ainda, os personagens que comparecem
nas áridas paisagens de Portinari, como crianças-passarinhos que brincam em torno
do solista.
As coreografias de Armando Aurich e Cláudia Palma,
que incluem a imagem magnetizadora da bailarina submersa na água, propõem para
a obra de Portinari – sempre afeita a um universo mais rural –, um contexto
mais urbano, como se os personagens vivessem em São Paulo. A coreografia se
refere à tela Depósito de
óleo, em que
dois tanques se instauram como “invasores” em uma paisagem bucólica. Por conta
de Possi Neto ficam a ambientação cênica e o desenho de luz em parceria com
Renato Salgado e Wagner Freire; a direção musical é do maestro Jacques
Morelenbaum, que também é um dos autores da trilha sonora, ao lado de Caetano
Veloso, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Sérgio Assad.
A confecção dos figurinos fica sob os cuidados do
estilista Lino Villaventura, que privilegia tons terrosos pontuados de cores
primárias, como o azul, e tecidos muito leves, principalmente malhas,
desenvolvidas especialmente para o espetáculo, com desenhos e grafismos. Desse
modo, o movimento não fica por trás do tecido, mas é acentuado por ele.
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